Por: Marco Carnut e Rosine Kadamani
Publicado na Revista Época Negócios em 02/07/2018


O escritor americano Upton Sinclair dizia que “é difícil fazer uma pessoa entender algo quando seu salário depende de não entendê-lo.” É sob esse mote que o relatório do Banco Internacional de Compensações (BIS), “Annual Economic Report 2018”, publicado recentemente, sobre a suposta falta de atributos do bitcoin como moeda, pode ser mais facilmente entendido.



"No geral, a tecnologia descentralizada das criptomoedas, embora sofisticada, é um fraco substituto para o anteparo institucional sólido do dinheiro [tradicional]", afirma o estudo.


No plano técnico de informática, o artigo é um show de desinformação: calcula que, se popularizado, o consumo de dados da rede bitcoin iria “quebrar a internet”, mas esquece que YouTube, Netflix e similares já operam tranquilamente com volumes de dados muito maiores, seja em armazenamento dos dados, seja na sua transmissão pela rede.


Com efeito, uma das páginas do próprio site da Netflix informa que cada hora de vídeo consome cerca de 1 gigabyte. Outra página informa que eles têm mais de 7 milhões de usuários. Se 2% estiverem assistindo algo ao mesmo tempo, estamos falando de mais de 1 petabyte por hora ou 40 gigabytes/segundo. Hoje os blockchains de todas as criptomoedas juntas crescem à taxa de menos de um terabyte por ano. Ainda podem crescer um milhão de vezes antes de rivalizar o consumo da Netflix, que, lembremos, não é a única provedora de vídeo via internet do planeta.


O enveredar pela ecologia destacado no relatório do BIS se revela igualmente míope: o artigo afirma que o consumo de energia elétrica da rede bitcoin é um “desastre ambiental”, mas esquece de mencionar que os mais de 7 bilhões de smartphones ao redor do mundo consomem mais energia (cerca de 1 watt por celular resulta em mais de 7 gigawatts) que toda a rede global de mineradoras de bitcoin (a rede testa 40 exahashes/segundo a 150 watts/terahash, resultando em 6 gigawatts) – e nem por isso oceanos evaporaram. E nem tinha como: toda a mineração de bitcoin do mundo, junto com todos os celulares do mundo, consomem menos de 0,6% da energia elétrica global.


Uma figura no relatório e sua legenda em particular demonstram com especial clareza a falta de entendimento: mostram como o saldo de uma conta é decrementado e incrementado em outra. Mas essa é a maneira como a contabilidade bancária tradicional opera – o blockchain opera de modo totalmente diverso: as novas informações suplantam as anteriores; não há atualizações ou sobrescritas, apenas acréscimos. Não se trata de uma mera tecnicalidade; não entender esse detalhe crucial impede a compreensão de como a transparência global e a tendência à imutabilidade do blockchain são possíveis.

O artigo segue afirmando que, no sistema financeiro tradicional, as transações são finais, no entanto podem ser revertidas – uma contradição lógica óbvia cuja justificativa convenientemente omitem: “é final se deixarem e reversível se eles assim o decidirem”. Aí jaz a verdadeira preocupação deles: querem manter sua forma de poder – o controle da contabilidade global.


Essa é a inovação transformadora, ainda pouquíssimo compreendida e menos ainda discutida, que o bitcoin traz: contabilidade perfeita, em que todas as contas – tanto da emissão das unidades monetárias quanto sua circulação pela economia – batem o tempo todo até a última casa decimal, continuamente auditadas em tempo real por uma rede global de voluntários que não precisam ter vínculo formal algum entre si.


Sim, o tamanho da infraestrutura necessária para que o bitcoin possa se tornar a moeda mundial que foi projetada para ser certamente é formidável, mas nada fora do nosso alcance. Se temos a tecnologia para contabilidade perfeita por meio da transparência extrema dos blockchains, por que nos contentarmos com menos? Para continuarmos à mercê dos mesmos desmandos políticos e dos mesmos cartéis de sempre? É essa a pergunta crucial que o relatório do BIS, ao sair pela tangente repetindo o surrado clichê de que o blockchain pode ter outros usos além de criptomoeda, perdeu oportunidade de fazer.


* Marco Carnut é CEO da CoinWISE, e Rosine Kadamani é CEO da Blockchain Academy